Instalei Sensores de Vazamento Zigbee no Home Assistant e Evitei um Alagamento
Montei um sistema de alerta de vazamento com sensores Zigbee e o Home Assistant que me avisou no celular antes que a água atingisse o vizinho de baixo.


Eram 22h de uma terça-feira comum em 2026. Eu estava no sofá, finalmente assistindo àquela série que empurrei para a lista "assistir depois" há meses, quando o meu smartwatch vibrou de forma aguda. Não era um e-mail de trabalho, nem lembrete de beber água. Era uma notificação crítica do Home Assistant: "Umidade detectada no Banheiro de Serviço". Corri para a área de serviço e encontrei uma poça formando-se silenciosamente atrás da máquina de lavar. O flexível da torneira tinha desenvolvido uma microfissura que, em questão de minutos, teria invadido o piso do apartamento.
Não foi sorte. Foi engenharia caseira barata.
Morar em apartamento, especialmente em edifícios antigos no centro de São Paulo, é viver sob a constante ameaça de problemas hidráulicos. O medo não é só o estrago na mobília; é o constrangimento de bater na porta do vizinho de baixo com a caixa de ferramentas na mão. Por anos, adiei a instalação de um sistema de antifurto porque imaginava algo complexo, caro, que exigia quebrar paredes ou contratar um encanador especializado em automação. Eu estava errado. A solução que montei custou menos de R$ 150 em hardware e meus dados de tráfego de rede mostram que não impacto nenhum na minha internet.
O dia em que o som de "gotejamento" virou pesadelo
A história começa seis meses antes do incidente da máquina de lavar. Eu estava no trabalho quando minha esposa ligou, aflita. Ela ouviu um barulho estranho vindo do lavabo. Ao chegar, a torneira de descarga tinha rompido e a água já escorria pelo ralo, mas a pressão era tanta que o chão estava uma lâmina. Ficamos duas horas secando tudo, usando três rolos de papel toalha e o secador de cabelo. O pior? Se isso tivesse acontecido durante a noite, a água teria transbordado para o corredor e descido para o vizinho.
O custo emocional daquela tarde foi maior que o financeiro. Eu precisava de um "zelador digital". Comecei a pesquisar empresas especializadas em automação predial. Orçamentos variavam de R$ 2.000 a R$ 5.000 apenas para instalar sensores em três pontos críticos e uma central de alarme que soava um apito. Alguns sistemas sugeriam até o fechamento automático do registro geral, uma válvula solenoide que custa caríssima e precisa de instalação hidráulica profissional.
Eu não queria fechar o registro geral automaticamente. Quero saber que tem água, para eu ir lá e fechar. Às vezes, um alarme falso (como derrubar um copo d'água) pode fechar a água da casa inteira e deixar você sem chuveiro numa manhã de segunda-feira. O controle manual, informado, era o meu objetivo.
Por que Zigbee e não Wi-Fi para isso?
A primeira decisão técnica foi escolher o protocolo de comunicação. Eu poderia ter comprado sensores de vazamento Wi-Fi genéricos por R$ 40 no Mercado Livre. Mas há um problema crítico em depender de Wi-Fi para segurança: a bateria e a rede. Sensores Wi-Fi consomem muita energia, exigindo troca de pilhas a cada dois ou três meses, e ainda lotam seu roteador se você tiver vários deles.
Zigbee, por outro lado, foi feito para isso. É um protocolo de baixa potência que funciona como uma malha (mesh). O meu objetivo era usar a infraestrutura que já tinha ou que era barata de expandir. Comprei quatro sensores da marca Tuya (modelos básicos de disco branco) que custaram cerca de R$ 45 cada. Eles usam uma pilha CR2032, aquelas fininhas de relógio. A ficha técnica promete dois anos de duração com um envio de sinal por dia. No meu uso intensivo de testes, a primeira pilha durou 18 meses. Isso é manutenção negligenciável.
Para gerenciar esses sensores, eu precisava de um "coordenador". Como eu já rodo o Home Assistant em um Raspberry Pi 4 debaixo da minha TV, a escolha foi lógica: um dongle USB Zigbee (Sony, ou um compatível genérico de CC2531) que custou cerca de R$ 70. Se você não tem um Raspberry Pi, existe a opção de usar um hub Sonoff Zigbee Bridge (custa cerca de R$ 120), que integra bem com o Home Assistant via "ZHA" (Zigbee Home Automation) ou "Zigbee2MQTT". Ficar preso ao app da Sonoff é perigoso; se a empresa quebrar o suporte ou mudar a API, seus sensores viram tijolos. O Home Assistant garante soberania sobre seus dados.

A arquitetura Zigbee: a economia de bateria que vale ouro
A grande vantagem do Zigbee em apartamentos brasileiros, muitas vezes com muitas paredes de alvenaria, é a capacidade de repetição de sinal. Se eu colocar um sensor no banheiro mais interno, longe do hub central, o sinal pode "pular" por uma lâmpada inteligente Zigbee que fica no corredor. Isso cria uma rede resiliente.
Meu setup atual consiste em:
- Coordenador: Dongle USB Zigbee conectado ao Raspberry Pi.
- Sensores: 3 unidades (atrás do tanque, sob a pia da cozinha, atrás da máquina de lavar).
- Repetidores: Duas lâmpadas Zigbee no corredor.
O processo de emparelhamento (pairing) no Home Assistant é simples: você coloca o sensor em modo de descoberta (geralmente segurando o botão por 5 segundos até piscar) e clica em "Adicionar Dispositivo" na interface ZHA. Em segundos, o HA reconhece "Water Leak 1". Renomeei para "Sensor_Cozinha" e "Sensor_Area" para facilitar a criação de automações. Não há necessidade de criar contas na nuvem ou conectar aplicativos chineses de terceiros. Tudo fica local, na minha rede. Isso é crucial para segurança: ninguém de fora vai desligar meu sensor de vazamento.
Do alerta ao celular: como configurei a automação
Ter o sensor no Home Assistant é só metade do caminho. Ele aparece como uma entidade binária: "Ligado" (molhado) ou "Desligado" (seco). Se eu não olhar para o painel do software, de nada adianta. O truque é transformar esse estado em uma notificação intrusiva no celular.
Não confio apenas no som do sensor (ele tem um buzzer interno, mas é baixinho). Eu preciso saber no momento em que estou fora ou dormindo. A automação que criei no editor nativo do Home Assistant funciona assim:
- Gatilho: O estado do "Sensor_Area" muda para "molhado" (wet).
- Condição: Se o estiver ligado (para não receber spam se eu estiver de férias e o alarme disparar por falha sem eu poder resolver imediatamente, eu adiciono um seletor de modo "Casa/Viagem").
- Ação:
- Enviar notificação de alerta crítico para o meu iPhone (via app Home Assistant Companion) e para o meu Android.
- Reproduzir uma mensagem de áudio nos Google Homes da casa: "Atenção, água detectada na área de serviço".
- Acender uma luz vermelha (uma fita LED RGB que já tinha) no corredor para alerta visual noturno.

Essa lógica é similar à que uso para criar rotinas no App Home que desligam o ar quando todos saem, mas com um nível de urgência muito maior. A automação de luz é barata, mas exige um passo a mais. Já o alerta no celular é imediato.
O "App Companion" permite que eu coloque ações na notificação. Quando o alerta de água chega, há botões na tela do celular: "Reconhecer" e "Silenciar". Se eu tocar em "Reconhecer", o sistema sabe que eu vi o problema. Se eu não tocar em 10 minutos, ele pode enviar um alerta para outra pessoa (minha esposa ou até um vizinho de confiança), criando uma rede de segurança social.
O custo real da prevenção
Vamos aos números, pois isenção financeira é mandatório aqui. O total do hardware foi:
- 3 Sensores Zigbee (Tuya/Sonoff): R$ 135,00.
- Dongle USB Zigbee (CC2652P): R$ 75,00.
- Raspberry Pi 4 (usado, já possuía): R$ 0,00 (custo oportunidade).
Se eu tivesse que comprar tudo do zero, estaria em torno de R$ 300 a R$ 400. Comparado ao prejuízo de um alagamento — pense no piso laminado que embola (R$ 80 por m²), na base do armário que incha (sem conserto, só troca) e na mão de obra para pintar o teto do vizinho —, o investimento se paga em um único incidente evitado. Um simples reparo de encanamento de emergência num domingo custa, no mínimo, R$ 300 apenas na taxa de visita do profissional.
Além disso, o custo mensal é zero. Ao contrário de serviços de alarme monitorado que cobram mensalidades de R$ 60 a R$ 100, este sistema usa minha internet e meu hardware. O "custo" é a minha própria curva de aprendizado em configurar o software. Se você prefere não mexer com código, o Home Assistant hoje tem interfaces visuais que facilitam muito, mas ainda exige um mindset de "faça você mesmo".
Limitações que preciso admitir
Não quero pintar um quadro utópico. O sistema tem falhas que você precisa considerar antes de sair comprando.
A primeira é a dependência da energia elétrica e da internet. Se a energia cair, o Raspberry Pi desliga e os sensores param de reportar ao celular. O sensor em si continua funcionando (tem bateria), mas ele não consegue avisar você porque o "cérebro" (o Hub) morreu. Para resolver isso, tenho meu Raspberry Pi ligado a um No-Break (UPS) pequeno que garante mais uma hora de funcionamento. É um custo extra, mas essencial para um sistema crítico.
Outro ponto são os falsos positivos. Na primeira semana, meu cachorro derrubou a vasilha d'água e o inferno se desatou no celular: buzzer, luzes piscando, mensagem no relógio. Aprender a posicionar o sensor é vital. Ele não deve ficar num local onde uma simples poça de condensação do ar condicionado dispare o alarme, a menos que isso seja relevante. Hoje, eu coloquei os sensores em "pratinhos" plásticos elevados, apenas para detectar acúmulo, e não respingos diários.
Por fim, isso não resolve o problema do vazamento, apenas o avisa. Se você está viajando para o exterior e recebe o alerta, você só consegue chamar um vizinho ou um chaveiro. Não existe varinha mágica digital que conserte canos estourados remotamente. É por isso que defendo que o fechamento automático de registro, embora sofisticado, pode ser perigoso se não houver redundância. Se o sensor travar fechado, você fica sem água em casa.
O veredito da experiência real
Após quase um ano operando, o sistema se pagou naquele incidente da máquina de lavar. Ele não evitou a mangueira estourar, mas evitou que uma poça virasse uma enxurrada. Recebi o alerta enquanto a água ainda estava contida na área de serviço.
Para o morador de apartamento que tem medo de problemas hidráulicos, mas não quer gastar o equivalente a uma viagem para o Nordeste em automação predial, a rota Zigbee + Home Assistant é a mais racional. É modular: você começa com um sensor na área de serviço e adiciona outros conforme o orçamento permitir.
A sensação de segurança que isso traz é incomparável. Saber que, mesmo dormindo, tenho um vigia inabalável ligado 24h por dia monitorando o que é invisível aos olhos, muda a relação com a casa. Não é mais um espaço passivo, é um ecossistema ativo que cuida de si mesmo. E o melhor de tudo: sem pagar mensalidade para ninguém.

